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O Verão começou hoje!

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counter strike

Apesar do tempo incerto que temos, o Verão começou hoje. Pelo menos no DN. É no Verão que se escrevem disparates sobre videojogos. Pois eles começaram. Counter Strike é o alvo, após um estudo que envolveu... 11 entrevistas e que os media analisam superficialmente para concluírem que... mas leia.

Com a devida vénia transcrevo o artigo que o DN deu à estampa (estampando-se...) a 15 de Junho, e que logo os telejornais pegaram nos seus – muitas vezes cabalísticos – destaques de rodapé. Ora diz a prosa que:

O Counter-Strike tem milhões de adeptos em todo o mundo. A violência neste jogo de vídeo levou o Brasil a proibir a sua venda, considerando--o uma ameaça à segurança pública, e o mesmo pode acontecer na Alemanha, após a revelação de que um jovem assassino era fã do jogo.

Uma jovem sueca de 17 anos, membro de uma equipa de Counter-Strike, resolveu abandonar a escola para se dedicar mais ao jogo. Sophie Regnér, membro da equipa de Counter-Strike Pink Zinic, vai deixar de estudar para se dedicar exclusivamente ao jogo. Sophie afirma que passar as noites a jogar prejudicava a sua concentração durante o dia, preferindo investir na preparação para um torneio.

No Brasil, a venda do jogo foi proibida em 2008. O juiz responsável pela medida alegou que Counter-Strike é um "estímulo à subversão da ordem social, atentando contra o Estado democrático e de direito e contra a segurança pública". Na versão brasileira, os jogadores podiam assumir o papel de um polícia ou de traficante de droga, com as favelas do Rio de Janeiro como pano de fundo.

Na Alemanha, o Parlamento está a considerar proibir a produção e distribuição de jogos de vídeo violentos, entre eles o Counter-Strike. O Governo alemão já baniu títulos como Gears of War e Dead Rising , mas está a estudar alargar a medida depois de ter sido noticiado que o atirador de 17 anos que matou 15 pessoas em Março passado era fã deste polémico jogo e também do Far Cry 2.

O Counter-Strike surgiu como evolução de outro jogo, o Half-Life, no final da década de 90. Os jogadores assumem um papel e trabalham em equipa para derrotar os adversários (forças antiterroristas contra terroristas, por exemplo). Para vencer é preciso eliminar os adversários, o que envolve muitas missões e tácticas. Tem milhões de adeptos, que realizam entre si campeonatos internacionais.

Pronto, agora que digeriram a primeira parte, vamos a factos interessantes que parecem ter escapado a quem montou a prosa... Por exemplo, que o mesmo juiz brasileiro também decidiu proibir Everquest (um jogo de fantasia online), mesmo não sendo o jogo oficialmente distribuído no Brasil. Como se proíbe algo que oficialmente não está lá  é que me deixa curioso. Mas é este mesmo Brasil que ainda não vedou o uso de Postal 2 Man Hunt, que é REALMENTE violento. Será que o juíz não viu? Será que sabe? Ninguém lhe diz?

Já escrevi sobre isto antes, em diversos locais, ao longo de anos, mas vou repetir: quando chega o Verão os jornais, a Imprensa em geral, desata a escrever disparates sobre videojogos. É a sua forma de contribuírem para manter a opinião pública bem  informada e... afastada de um meio de entretenimento que ameaça tornar-se dominante e acabar com uma série de “tachos” e lugares cativos noutras áreas. Já aqui escrevi sobre a teoria da conspiração e cada vez acredito mais que ela existe. Até pela forma “inteligente” como parece ser escolhido quem escreve sobre videojogos nos meios de Comunicação Social generalistas. Esta contribuição do DN é mais um tijolo nesse muro. Lembram-se de The Wall?

Ora vamos lá às alegadas ligações entre Counter Strike e a violência. O jogo, que é uma modificação de Half-Life, surgiu em 2000. Mas só em 2007 parece ter criado controvérsia mais acesa, quando um advogado da Flórida (ex-advogado, banido por falsas alegações e uma série de outras coisas... é neste homem que confiam?) Jack Thompson, defendeu a associação entre o Massacre da Virgina Tech e o jogo Counter Strike. Isto ainda antes de o atirador ser identificado. Apesar de indicações de que o assassino jogava, nunca se chegou a qualquer conclusão. Mas isso não impediu Jack Tompson de continuar a sua campanha contra videojogos: da alegada nudez escondida em The Sims 2 até sugerir que o comando Dual Shock da PlaytStation 2 causava sensações estranhas nas mãos – e logo devia ser banido – Thompson é a estrela dos jornais e jornalistas com uma visão afunilada do mundo dos videojogos.

Counter Strike foi também alvo de Thompson após o massacre na Universidade de Illinois em Fevereiro de 2008. Steven Kazmierczak, o atirador, jogava Counter Strike, mas os dados incontornáveis sugerem que problemas mentais e não videojogos foram os prováveis culpados pelo sucedido. Aliás, um dado interessante que poucos parecem querer referir – a informação está disponível – é que um estudo dos Serviços Secretos americanos sugere que só 12 por cento dos envolvidos em atentados deste tipo em escolas jogam videojogos, enquanto 24 por cento lêem livros violentos e 27 por cento parecem atraídos por filmes violentos. Um estudo australiano – país onde também tem sido proibidos diversos jogos – indica que somente as crianças com predisposição para a violência são afectadas por videojogos violentos. Mas isto ninguém parece querer escrever. É muito mais giro escrever que os videojogos matam. É isso que vende papel...

Aliás, como uma desgraça nunca vem só, o DN tem dois artigos online sobre o mesmo tema no mesmo dia (pois, um deve complementar o outro, eu sei, mas isso não invalida que se trata de uma dupla dose de disparate. Ora diz o outro artigo que Counter Strike...

É um dos jogos online mais populares e polémicos do mundo e acaba por ser viciante: os jogadores de Counter-Strike têm dificuldade em controlar o tempo que passam em frente ao computador e revelam sintomas de dependência. Mais preocupante é que o jogo aumenta a agressividade dos adolescentes. As conclusões são de um estudo de dois psicólogos portugueses.

Hugo Morgado e Zélia Teixeira acompanharam 11 adolescentes que jogam Counter-Strike (CS), o famoso videojogo de acção e tiros, para levantar a ponta do véu sobre os hábitos de jogo e consequências para a vida dos jovens.

Ao longo das entrevistas, os próprios adolescentes admitem que o jogo gera "sentimentos negativos". Reconhecem que quando não conseguem atingir um objectivo ficam revoltados e irritados. "Como no CS o adolescente sabe quem o 'matou' , pode dirigir a sua fúria para essa pessoa, como mostram alguns testemunhos que falam de agressões em torneios", afirma Zélia Teixeira.

Este estudo que toma o pulso a 11 jovens não explica, no documento disponível para análise, a metodologia prática da escolha, de forma a poder-se definir a validade da amostra. Fica no ar a pergunta de como foram seleccionados os inquiridos, pelo que não se sabe se fazem parte de um mesmo grupo, região geográfica, faixa etária e outros elementos que permitiram ao leitor entender melhor esse aspecto crucial da investigação. Não querendo colocar em causa o estudo - que vale o que vale -, preocupa-me a amostragem ser reduzida para se poder determinar se foi feito o retrato-tipo do jogador de Counter Strike e mesmo se o cenário global de videojogos deste tipo é idêntico. Pessoalmente o que me preocupa neste tipo de abordagem é que ela parte muitas vezes de investigadores que são penalizados por dois aspectos: mesmo clamando não se sentirem influenciados por trabalhos anteriores, acabam por aplicar algumas dessas chancelas académicas, por vezes já desfeitas ou que o tempo se encarregou de destruir, e ao mesmo tempo demonstram ter uma relação de desconhecimento efectivo do meio...

O mercado está cheio de estudos “usados” de forma superficial pela comunicação social para simplesmente denegrir (ou apoiar) determinado tema. Este é mais um sinal disso mesmo. Começa-se com um estudo de que algumas conclusões se colocam em cheque e os jornalistas fazem o resto. Por exemplo, lê-se o artigo que os jovens “Reconhecem que quando não conseguem atingir um objectivo ficam revoltados e irritados. "Como no CS o adolescente sabe quem o 'matou' , pode dirigir a sua fúria para essa pessoa, como mostram alguns testemunhos que falam de agressões em torneios", afirma Zélia Teixeira.”

Dispenso-me de comentar a nota. Substitua o leitor CS por “futebol” e diga-me por que razão não se escrevem tantos estudos sobre a violência no futebol. Ou se sugere que o Instituto da Droga e Toxicodependência pode tratar esses casos de “futebolite” aguda. Porque é o que sucede aqui. O responsável do IDT (em cuja revista este estudo foi publicado), João Goulão, indica no artigo do DN considerar que a adição ao jogo tem características de outras dependências. "Mesmo do ponto de vista neuroquímico, das zonas do cérebro que são estimuladas, há semelhanças", explica. "Quanto à forma de os abordar, do ponto de vista do tratamento, não é assim tão diferente, e por isso os nossos técnicos estão preparados para o fazer se for necessário", garante.

Ora aqui está uma nota interessante. Porque contraria o que emanou da Assocação Médica Americana (AMA) que decidiu adiar para 2012 uma classificação dos videojogos como vício, um recuo de última hora, em 2007, alegadamente por não haver dados que permitam confirmar que o uso excessivo de videojogos e jogos online pode ser colocado na mesma linha de problemas  que o álcool ou drogas.

Segundo o doutor Stuart Gitlow, da American Society of Addcition Medicine e Mt Sinai School of Medicine de Nova Iorque, “não existe nada que sugira tratar-se de uma doença psicológica semelhante ao alcoolismo ou a problemas com abuso de outras substâncias e não tem de ser catalogado como “vício”.

E como diz  um outro médico,  Michael Brody, líder de um grupo de estudo sobre televisão e media na Academia Americana da Psicologia para Crianças e Adolescentes, o uso excessivo de videojogos pode significar depressão ou ansiedade social, que já têm diagnósticos próprios e não necessitam de uma nova classificação. Segundo o clínico, “é possível falar em vício face a muitas outras coisas do comportamento humano. Porquê parar nos videojogos? Porque não Blackberries, telemóveis ou outros hábitos irrritantes?

Podia continuar a traçar “irregularidades” no artigo, mas deixo o leitor com duas notas interessantes: a jovem sueca que deixou de estudar tem o apoio da família e está integrada numa equipa profissional de Counter Strike que se prepara para um campeonato que lhes pode dar um prémio interessante: 13 mil euros. Pois... siga o link para saber mais. Pode-se sempre discutir a oportunidade da escolha, mas é bom saber mais do que o contado num parágrafo de jornal.

http://www.sk-gaming.com/content/24581-17_yearold_Zinicinzane_I_quit_school_for_CS

E já agora. Como todas as moedas têm duas faces saiba que Counter Strike em 2007 era usado para treinar a polícia da cidade portuária de Tianjin, no norte da China. Mais de 300 polícias usaram o simulador para treinar as suas capacidades de luta anti-terrorista. Nada de novo, de facto, porque já em 2002 o exército britânico usavam uma versão especial do mod de Half Life para treino dos soldados. E anote-se que Counter Strike é somente o mais popular por muito antigo, pré-histórico. Existem dezenas de jogos do mesmo tipo, desde America's Army (grátis, distribuido pelo exército americano) a Call of Duty.

E se tudo isto lhe despertou o interesse, espreite o link abaixo. A conferência Games for Health foi este mês. Leia e guarde o link.

http://www.gamesforhealth.org/details.html

 

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