Categoria: Jogos Publicado em quinta, 11 fevereiro 2010 10:08

São seis horas de jogo. Ou filme, como alguns lhe vão chamar. Um guião cheio de curvas que nos supreeende e no fim nos deixa com vontade de mais. Mas é preciso gostar para conseguir levar Heavy Rain até ao final. Este thriller negro da Quantic Dream não é uma obra convencional.
Um jogo onde existe um convite à não acção é um jogo que não existe, dirão alguns. Nesse caso Heavy Rain: the Origami Killer não existe. Mesmo se na versão portuguesa tem as vozes de Cláudia Vieira, Vitor Norte, Marco Delgado, Leonor Seixas, Pedro Lima e Pepe Rapazote, que ajudarão alguns a transpor a barreira da língua.
Sobre a adaptação de vozes diga-se que é um trabalho aceitável mas sem o brilho do original. Isto porque falta a “garra” na vocalização que se encontra no original, em que o registo de vozes foi feito por quem também interpretou os papéis. Ler um texto e vivê-lo são coisas distintas e isso sente-se aqui, mesmo se para quem não comparar com o original isso não faça diferença. Ou pelo menos muita diferença.
A passagem para português sugere a aposta da Sony neste título exclusivo da sua consola PlayStation 3, uma obra sobre a qual já havíamos escrito na Videojogos. Não há muito mais para dizer sobre os aspectos comerciais e o próprio jogo em si enquanto obra de um catálogo, o da Quantic Dream, que diverge do que é tradicional. Resta a nota de que a Sony se empenhou aqui ciente, pressente-se, de que apesar da qualidade da obra este não vai se rum sucesso de bilheteira. De facto, apesar da recepção da crítica, tendencialmente positiva, na recta final por vezes aquilo a que se assiste é que essa mesma crítica tem dificuldade em sair dos eixos e classificar uma obra que diverge dos cânones instituidos para os jogos.
Ora Heavy Rain começa por ser uma obra que nos deixa a opção da não acção, algo que alguns acham impensável num jogo. Isso pode ser uma razão para o não sucesso. A outra é que a generalidade dos jogadores não gosta ou sequer entende algo como Heavy Rain, achando uma “chatice” um jogo que parece um filme.
Na verdade Heavy Rain é um filme. Ou podia ser um filme. Mas é um filme interactivo como existem poucos e que mesmo através da não acção já citada nos lança numa corrida psicológica e por vezes fisicamente intensa na trama da obra. Com vários percursos alternativos que acabam por conduzir, pensamos, sempre ao mesmo final da linha condutora, Heavy Rain cumpre com as promessas do autor da história, David Cage. Não é uma obra perfeita, mas é o mais próximo que se pode ter da obra perfeita e uma excelente viagem para quem a souber aceitar.
Com quatro personagens controláveis, o herói e uma jornalista e dois detectives que se movem nos extremos da investigação policial, um com o aspecto do bonancheirão “private eye” dos filmes dos anos 50 o outro recorrendo a tecnologias tridimensionais e ferramentas que fariam inveja ao CSI – e alguma droga à mistura – e uma centena de actores virtuais, moldados a partir de gente real, que compõem o horizonte da aventura, Heavy Rain é a história de um pai que após ter perdido um filho se vê confrontado com a hipótese de perder o outro, raptado em circunstâncias estranhas por uma personagem que todos chamam de Assassino do Origami... por deixar as complexas construções de papel na pista dos seus crimes. Com sete crianças mortas na altura em que o jogo começa, o pai da criança desaparecida tem pela frente uma difícil tarefa, em que os minutos contam. E em que é posto à prova para mostrar até onde está disposto a ir para salvar o filho.
Experimentámos já matar algumas das personagens do jogo durante os ensaios com a obra e chegámos sempre ao mesmo ponto final na obra, o que sugere que de facto existem alternativas nas escolhas e que não existe um verdadeiro Game Over. O que quer que aconteça pelo caminho, os minutos finais do jogo, quando tudo se compõe e o criminoso é identificado são empolgantes, mantendo a atenção presa mesmo depois dessa descoberta. É como ler um bom livro, seis horas em média de leitura se quiser saber quanto demora este jogo, que nos deixa com vontade de experimentar mais. Algo que parece vir a suceder porque vão ser lançados episódios extra para a série, segundo indicou já David Cage.
Quem é o criminoso? Bem... isso não vamos mesmo revelar. Seria estragar o efeito de surpresa. Acredite que vale a pena, mesmo se este não é o jogo tradicional, em todo o sentido do termo.