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Alice, o jogo maravilhoso

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Estar contra-corrente é bom. Por isso mesmo um jogo de um filme que até consegue ser excelente é uma boa notícia. Alice in Wonderland é isso mesmo. Por mais que não o digam. E a aventura serve de ponto de partida para descobrir que existem mais Alices na terra. Em livro e noutros jogos.

É sempre com desconfiança que pego em jogos de filmes... São por norma uma m****. Foi portanto com alguma apreensão que peguei na embalagem de Alice no País das Maravilhas, jogo inspirado no filme de Tim burton, que por sua vez se inspirou (e divagou a partir daí) nos livros de Lewis Carroll que são a fonte de todas estas aventuras.

Alguns ds amigos de Alice no jogo do filme de Tim BurtonAntes que me esqueça um aviso à navegação: apesar de a embalagem estar em português, o jogo está em espanhol (ou em inglês, a alternativa que escolhemos), o que sugere a nossa dimensão. Esta medida dos editores do jogo cheira-me um pouco a manora para enganar o incauto, porque muitos país com miopia ou avessos a ler as letrinhas no verso da embalagem vão adquirir o jogo para a criançada e depois vão ficar admirados de ouvir a petizada dizer coisas como "Alice, se ha borrado de mi miente..." ou coisa assim, que eu não hablo espanholês...

Se o fizerem (comprar o jogo para os putos) nessas condições vão cometer dois erros: não ter a obra na língua de Camões e dar aos putos um dos jogos mais violentos de todos os tempos. Verdade, ao lado disto Call of Duty: Modern Warfare é brincadeira de crianças. Não acredita? É verdade. Depois de ler a crítica do IGN ao jogo fiquei convencido disso mesmo: o autor da nota achou que a quantidade de inimigos em Alice era demasiada para ser possível triunfar na aventura. Ahn? Ouvi bem?

Alice na versão de American McGee usa faca e o gato de Chesire tem um aspecto assustadorAté eu, que não me dou muito com grande confusão no ecrã, passei o jogo com relativa facilidade. Acabei-o, de facto, em 12 horas e um minuto de viagem. É verdade que a acção pode ser épica em alguns momentos, com dezenas de inimigos que é necessário derrotar (cartas do baralho da Rainha, se recorda a história) mas em nenhum momento senti que era algo intransponível. E não, não se trata de premir somente uma tecla para dar cabo de inimigos (bashing, diz o IGN), porque além de jogarmos com personagens distintas – e podermos combater com elas –, todas têm capacidades diferentes e combos que permitem... matar de variadas formas. Em modo furtivo com o gato Chesire, por exemplo, à martelada final com o Chapeleiro, partindo a loiça toda com a Lebre ou dando alfinetadas com o arganaz. E nem sequer estou a esgotar a lista.

Mas é verdade que Alice in Wonderland é violento. Como todas as histórias infantis diria, pelo que aqui nada de novo se pode atribuir aos videojogos. Não acredita? Já lei os contos dos irmãos Grimm? Recorda-se da história da Branca de Neve, cuja madradsta mandou que lhe cortassem o coração? Por que raio é isso mais trágico em Mortal Kombat do que no universo dos sete anões?

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Alice é um jogo violento. Com a mesma violência que Lewis Carroll deixou nos livros com uma rainha que corta cabeças a torto e a direito. Mas Alice in Wonderland é um jogo muito belo, uma excelente adaptação do filme para jogo e, pelo menos na versão de PC que testámos, uma excelente experiência sensorial que nos empurra ao longo de toda a história. Quer se tenha sete ou 77 anos. Basta que se goste de mundos imaginários. Para crianças? Uma ova, até porque os livros de Alice (Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho) não são para crianças. Ou, explicando melhor, podem ser para elas mas são também leitura com significados para adultos. São, diria, como cebolas, com diferentes camadas ou níveis de entendimento, acessíveis a diferentes graus de saber e experiência. Quase como sociedades secretas com diferentes círculos de poder, se me faço entender.

Esta adaptação do filme não é somente boa como adaptação. É boa, “tout court, como usa dizer-se. Claro que esta opinião minha, após ter jogado toda a obra, não é partilhada pela generalidade dos “analisadores” de jogos, que parecem ter de encontrar sempre pontos negativos em derivações de outros suportes. E no caso dos americanos e ingleses existe ainda uma outra coisa: parecem ter alguma espécie de reacção negativa às produções francesas. Ora Alice é resultado do esforço da Etrange Libellules para a Disney. A Etrange Libelulles tem assinado os jogos da série Astérix, Arthur and the Minimoys e Spyro, the Dragon.

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Sente-se isso – e alguma incapacidade de sair da moldura dominante de análise de jogos – nas críticas entretanto publicadas. Claro que Alice não é inovador, bebe em diferentes fontes para conceber os desafios ao longo da viagem, mas o resultado é muito equilibrado, com momentos de puro deleite ante as soluções conseguidas. Plataformas invertidas, em que se tem de andar no tecto e encontrar forma de usar prateleiras para chegar a pontos estratégicos para a continuação da história, a lógica dos múltiplos puzzles, a junção das capacidades distintas de cada personagem encontrada, tudo concorre para fazer da experiência uma agradável proposta de que se sai com a ideia absoluta de não se ter perdido o tempo.

Alice na versão da Disney e no jogo de American McGeeAlice dá ao jogador cinco personagens e não quatro como diz a embalagem do jogo para controlar. Chapeleiro, Arganiz, Gato de Chesire, Lebre e Coelho unem as respectivas capacidades para ajudar Alice a chegar ao confronto final que é razão de toda a história. É uma proposta diferente da do jogo American McGee’s Alice, lançado pela Electronic Arts em 2000 e com que este título divide muitos elementos. Na obra incontornável de McGee o jogador controla Alice, num jogo que se centra também num regresso ao mundo subterrâneo mas que nos dá Alice para controlar. Apesar de distintos, ambos os jogos acabam por reflectir a violência dos livros que lhes servem de ponto de partida.

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Por causa deste lamçamento decidimos passar em revista não só os livros mas tamnbém o jogo de American McGee, para chgar à conclusão que se McGee bebeu muita da ambiência original para criar o seu jogo de 2000,  Tim Burton e subequentemente a Etranges Libelulles beberem na adaptação de McGee para produzirem o filme agora lançado e o jogo que o torna interactivo. Existem muitos pontos em comum no discurso gráfico, se bem que, claro, a origem nos seja sempre confirmada ao ler as páginas de Lewis Carroll (ou Charles Lutwidge Dodgson de verdadeiro nome).

Afinal, antes de Tim Burton surgir com Alice corriam no mercado informações sobre um filme baseado no jogo de American McGee, que teve mesmo um elenco proposto (com Sarah Michelle Gellar de Buffy Vampire Slayer como Alice), mas que não parece, agora, ter muitas hipóteses de vingar. Também um novo jogo em torno de Alice na versão American McGee está ainda agendado para 2011, mas resta saber se ainda é possível explorar o filão, agora que este jogo concita todas as atenções para quem gosta do género.

American McGee's Alice é um clássico com 10 anosE em boa verdade, o novo Alice in Wonderland é melhor do que a versão de 2000 de American McGee. A nível gráfico uma década passou e isso sente-se no resultado. A história é também mais apelativa a uma maior fatia de potencial público e o facto de se controlar várias personagens contribui para tornar o jogo mais diverso. Junte-se a isso mais animação – diria que o factor de stress do novo jogo é bem maior – e temos os condimentos certos para um jogo que pode ser, em termos de interesse, transversal a várias gerações.

As imagens e animações usadas para ilustrar este artigo são mais do que suficientes para mostrar do que falo. Um único conselho: se tiver oportunidade compre os dois títulos e experimente-os. São, diria, obras incontornáveis para entender como os videojogos podem ser mensageiros das histórias tradicionais. E até despertar nos mais jovens o interesse pela leitura das obras literárias.

 

Faça download da demo de American McGee's Alice

 

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