Categoria: Online Publicado em quarta, 19 novembro 2008 17:06

Desde que a história foi noticiada a Imprensa tem, de novo pegado no tema e em todos os argumentos habituais. Há mesmo quem tenha ido buscar (a BBC, great guys, great) um estudo que diz que jogar videojogos violentos pode alterar o batimento cardíaco dos adolescentes e alterar o seu sistema nervoso. Também dar o primeiro beijo numa namorada (e uma série de outras coisas), assistir a um jogo de futebol ou ter a primeira relação sexual (e seguintes, espera-se) e isso não parece ser notícia. E que diria eu das actuais notícias da crise? Dos telejornais? De alguma novelas e filmes? Não põem o coração aos saltos?
Pois, lá vamos nós para o mesmo. Os jornais parecem adorar esta corrida. A estupidez natural continua a grasssar e a igorância aponta o dedo aos videojogos como a causa de todos os males. "Um adolescente sueco de 15 anos de idade sofreu um colapso e entrou em convulsão depois de jogar World of Warcraft" dá uma boa história. Mas por que raio ninguém pegou numa outra, dos primeiros dias de Novembro, sobre um jovem que morreu depois de um jogo de futebol? Foi assassinado, parece, por um adepto. Vamos acabar com o futebol? Vamos?!
Voltemos, contudo, à nossa história do jovem sueco com um colapso por excesso da nova expansão de World of Warcraft (que saíu há dias, o que explica a excitação do jovem). Explica-a mas não justifica que fizesse uma directa de 24 horas a jogar. E esse parece ser o problema. Mais grave, ainda é que os pais é que chamaram a ambulância, o que sugere que estavam em casa, por perto mas não parecem ter percebido que o filho estava a jogar há muito tempo. Estariam a ver televisão? 24 horas?
O jovem está livre de perigo, os médicos dizem que o colapso foi o resultado de falta de descanso, falta de alimentação adequada e tempo excessivo sob stress, devido à sua concentração no jogo. O pai já afirmou que lhe vai limitar os horários de jogo e até iniciou uma campanha para alertar outros pais para o perigo. Perigo de quê? De os pais não darem a devida atenção aos filhos? É o que parece aqui. A abstracção total de muitos pais em relação ao universo dos mais jovens, a renitência que têm em "parar para ver e escutar", até a negação adulta dos videojogos como forma de entretenimento contribuem para a criação de um fosso que cria depois situações deste tipo.
Seria evitável. Talvez sim, talvez não, mas não se pode culpar os jogos. Enquanto vivi na Dinamarca, nos anos 70, ao longo de três anos, assisti ao desfilar de milhares de jovens suecos que tomavam o barco da Suécia para a Dinamarca para poderem beber cerveja (e outras coisas) facilmente e a preço acessível (a bordo das embarcações de ligação) e que depois caíam perdidos de bêbados nas ruas de Copenhague, onde a polícia os recolhia - por vezes para uma visita ao hospital e lavagem ao estômago - para devolver a casa. Que eu saiba ninguém acabou com o álcool naquelas paragens por causa do espectáculo triste que esses jovens faziam.
Sempre que este tipo de acidentes acontece, os jornais procuram um culpado. Neste caso e no artigo da BBC, refere-se que desde a saída da nova expansão de World of Warcraft os pais suecos têm ligado para as clínicas afirmando que estão preocupados com o nervosismo dos infantes lá de casa. Isso é normal, se de facto aconteceu, porque é o mesmo tipo de excitação que quando o iPod saíu... mas ninguém pensou ainda proibir o dito ou sequer fazer um estudo para perceber que efeito tem nas crianças... além da surdez que terão aos 30 anos... Pois.
O artigo da BBC (e outros dos que espreitei na web) continua com o habitual chorrilho de disparates sobre estudos, em alguns casos referindo a possível falta de fundamento dos ditos, mas construindo uma teia que encaminha o leitor para a conclusão que o jornalista quer fazer passar: os videojogos são maus. É um triste espectáculo o que esta dita Imprensa dá de si sempre que trata estes temas. Até porque por vezes refere estudos positivos, mas parece esquecer tudo isso quando se trata de fazer sangue. É que, afinal, talvez seja melhor que um jovem colapse de jogar Warcraft do que de ingerir álcool em excesso. Pessoalmente acho que o exagero é sempre mau, mas fisicamente fica por decidir o que será pior. O pior de tudo, porém, é que os pais só agora parecem ter acordado. Esse é que é o drama. Mas disso ninguém parece querer falar nos jornais.