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11 milhões em WOW, 80 milhões em Farmville

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O público criou a ideia de que jogadores de videojogos são uma comunidade disposta a pagar 40 a 60 euros por um jogo. Mas na realidade há bem mais gente jogando em redes sociais, e pagando bem mais por isso.  Em suaves prestações mensais...Por jogos da treta em muitos casos.

Actualmente é bem mais fácil um adulto ser tolerado pelos seus hábitos de jogo, digo videojogos, mas continua a ser uma actividade olhada por muitas pessoas como marginal, coisa infantil que não se consegue explicar. Isto apesar de existir uma entidade europeia que em consenso com as organizações de diferentes países define a classificação etária dos jogos... e nela inclui uma faixa para maiores de 18 anos. E de idêntica entidade existir nas Américas e noutros locais.

Isso não impede que sempre que digo que jogo – agora estou a viver como um comandante de nave das estrelas em Star Trek Online – as pessoas me olhem como se eu fosse  de outro planeta. Os adultos não gostam, salvo raras excepções, de assumir que jogam. Nesse capítulo nada mudou assim tanto, mesmo se muita da gente que me olha com suspeição por eu jogar o que jogo cedo corte a conversa dizendo que tem de apressar-se para ir... tratar da quinta. Que não é um pedaço de terra ali para as bandas da Outra Margem ou coisa parecida, mas uma quinta virtual no computador. Verdade, as pessoas estão entregues ao jogo, mas não ao jogo como eu o entendo. Enquanto para mim a ideia de um jogo de estratégia é algo como Age of Empires, Simcity ou o próximo Civilization de Sid Meyer, para os meus interlocutores jogar é... passar horas num mini-jogo em flash em que gerem uma quinta virtual. Ou coisa do género.

O aspecto dos ecrãs de Farmville. Compare com a imagem abaixo, de Civilization VIO meu filho Miguel já há dias tentou explicar por aqui que existem jogos mais interessantes do que Farmville. Decidi que valia a pena voltar ao tema porque sinto alguma curiosidade por este tópico: pessoas que me olham como um estranho por eu dizer que jogo Star Trek Online ou Lord of the Rings Online (ou Dragon Age:Origins ou... tantos outros) mas que depois perdem, parece-me que até mais horas do que eu, a plantar couves virtuais numa quinta que não existe. Eu sei que nada disto existe, mas o meu universo de fantasia é bem mais rico, como uma estória de encantar, enquanto que o deles é... uma nabice.

Civilization VI, de Sid Meyer, um jogo de estratégiaAcho que falta às pessoas terem a humildade de perceber que jogar é jogar e que não me podem criticar ou achar-me tonto por eu querer vestir a pele de um hobbit por horas (imerso no rico universo de fantasia dos livros de Tolkien) quando perdem horas a sachar um batatal virtual. Diria que a minha fantasia está criativa e literariamente muitos pontos acima. E esse é o meu problema: se querem realmente jogar, nada os impede de experimentarem os milhares de jogos de browser e flash existentes, mas por favor experimentem um, perdoem-me a expressão – jogo a sério – antes de falarem do que não sabem. Porque um título como Dragon Age: Origins, por exemplo, exige um envolvimento bem maior do que qualquer “agricultura”. Mas as recompensas são efectivamente maiores.

Pet Society no Facebook tem 12 milhões de jogadores em um anoA verdade, porém, é que estes não-jogadores – ah pois, estas pessoas por vezes abespinham-se quando lhes dizemos que são jogadores – são responsáveis por uma economia que viceja num tempo em que as vacas são magras. Efectivamente, parece mais fácil gastar meia dúzia de euros numa compra num jogo de browser do que gastar 60 euros num... videjogos a sério. O problema é que, segundo parece, estes pequenos jogos estão construídos com a mesma lógica das telenovelas. Aqui isso quer dizer que o jogador quer sempre um pouco mais. E isso significa ir gastando. Lá diz o ditado: grão a grão... Pois, um jogador descuidado acaba por descobrir que em alguns meses pode ter gasto uma fortuna.

Mesmo que muitos não gastem, há gente suficiente para que os que gastem mantenham o negócio. Porque de um negócio se trata. Grande. Gigante. Porque  os 11 milhões de utilizadores de World of Warcraft, um videojogo a sério, não são nada ante os mais de 80 milhões - e continua a crescer, que mês após mês jogam Farmville no Facebook. Se contabilizarmos o mercado provável ainda por explorar nas diversas redes sociais, que reunem a caminho de dois mil milhões de pessoas, imagine-se o que está ainda por fazer. Basta que cinco por cento desse mercado seja de devoradores de jogos de flash e teremos um exército de milhões de agricultores virtuais. Farmville...

Dogz, um simulador de animais de estimação para PCNão são exclusivamente os jogos em redes sociais que  estes não-jogadores jogam. Também em equipamentos móveis, incluindo telemóveis, iPhone e iPod se assiste à explosão do jogo casual, como usa chamar-se-lhe. A Electronic Arts anunciou em Janeiro que o título Tetris foi adquirido mais de 100 milhões de vezes.

No mercado desde 1989, primeiro na Nintendo e depois em PC, Tetris já vendeu 125 milhões de unidades desde então. Em 30 anos... Para podermos comparar dados basta referir que a Electronic Arts só detem os direitos da versão para dispositivos móveis desde 2006 e que o jogo está distribuido em 60 países e 64 mil tipos de aparelhos, dos quais 20 por cento são smartphones. O jogo está também disponível para iPhone e custa 4.99 dólares.

Enquanto WOW demorou anos a atingir os 11 milhões de jogadores que diz ter, títulos como Pet Society, no Facebook, reuniram mais de 12 milhões de jogadores no espaço de um ano. O mundo virtual em que se adopta um animal, que depois se tem de manter comprando-lhe coisas para o apartamento em que vive parece ser do agrado de muitos...  que provavelmente nunca viram os originais Catz, Dogz e Petz em PC, que remontam a 1995, ou em algumas consolas. É esta a realidade social em que vivemos. Não tenho nada contra estes pequenos jogos, que podem ser divertidos por alguns minutos, mas não percebo como as pessoas podem passar horas diante destes ecrãs pobres, repetitivos, em gestos quase mecânicos,  e quando se lhes diz para experimentarem algo diferente, mais ousado, dizem que não têm tempo para isso e que não jogam. Já contabilizou o tempo que perdeu a gerir a sua farm?

 

 

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