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Televisão 3D chegou: falta é o conteúdo

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A Samsung mostrou hoje em Portugal  e promete ter no final de Março nas lojas os seus modelos de televisores 3D. Resta saber para que servem. Nos jogos já se viu. A exigência de óculos, a fala de conteúdos e o elevado preço dos televisores aconselham a esperar calmamente.

A Samsung é notícia por estes dias em toda a Comunicação Social. Chega ao mercado nacional com a camisola amarela envergada, primeira a distribuir televisores 3D, adiantando-se aos outros nomes do mercado, LG, Sony e Panasonic. Ninguém lhe deve ter dito é que não existe meta: ou sequer corrida.

A televisão 3D arrisca-se, de facto, a ser uma espécie de Blu-Ray da caixa mágica. A qualidade do DVD tem obstado à passagem do mercado para o formato. Quem é que, seu conhecido, tem Blu-Ray? Os dedos de uma mão chegam para os contar? E no caso do Blu-ray até existem conteúdos para comprar ou em vídeos clubes. E o Blu-Ray é uma norma, o que facilita as coisas: é tudo igual em termos de discos.

Ora no 3D ainda está por saber como é que vamos estar em termos de compatibilidade entre sistemas e o que vai suceder quando existirem conteúdos. Mas por ora ter um televisor 3D, em Portugal e no mundo, vai ser como ter a chave de um excelente carro, mas não saber onde ele está estacionado. É que sem alguém que forneça os conteúdos, um televisor 3D é como um pisa-papéis. Com a agravante de este pisa-papéis custar alguns milhares de euros. Mais, efectivamente, que um bom e, pode dizer-se, convencional, televisor de FullHD.

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E aqui reside o problema: muita gente nem sequer tem HD ainda. Até aqueles que compraram um ecrã gigante nos últimos saldos de uma grande superfície e que julgavam que tamanho era qualidade já descobriram que foram enganados. Os 1920x1080 pixéis que dão direito a ver filmes na qualidade máxima não estão lá. Alguns nem sequer HD Ready conseguem atingir... e são somente 1280x 720 pixéis de que estamos a falar.

Ainda recentemente soube da história de alguém que depois de ter comprado uma moderna câmara digital com capacidade de fazer filmes em Full HD voltou ao fabricante do aparelho a queixar-se de que a qualidade não era a esperada no seu televisor de 42 polegadas comprado no Natal passado. Pois, existia de facto um problema: o imenso ecrã tinha uma resolução de 480p, ou seja 852x480 pixéis. Por alguma razão, descobriu o infeliz proprietário, fora tão baratinho.

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Infelizmente estamos neste pé ainda em muitos casos. As pessoas tem um televisor HD Ready (1280x 720 ou 720p) ou menos do que isso. Isto nos casos em que ainda continuam estoicamente, com um televisor CRT da velha guarda.  O que quer dizer que ainda nem deram o salto para a alta definição e já lhes estão a querer vender a tecnologia seguinte... sem conteúdos que justifiquem a aquisição. Claro que existe sempre o factor de ostentação, que levará uns quantos a comprarem um televisor, mesmo que depois não possam ver nada 3D dentro dele.

A não ser, claro, os anúncios 3D do Meo ou os “ensaios” da ZON com 3D, que se apressou a colocar de pé um canal de teste (???) depois de ver o passo do Meo. Parecem crianças com uma guerra do tipo “o meu é melhor do que o teu”, quando no Meo ainda há tanta coisa para colocar realmente a funcionar e na ZON... nada funciona efectivamente como prometido. Exemplos? Uma box com gravação que só grava quando lhe apetece e que a empresa diz, agora, só em Maio, talvez conseguir reparar através de um remendo de software... quando em Janeiro prometia Fevereiro. É a mais pura saloice nacional prometerem 3D quando nem em 2D conseguem dar conta de um serviço eficiente, mas a verdade é que a comunicação social generalista ajuda, ao apostar num universo de gadgets (ou gadjets, como escrevem alguns) e ao dar voz e espaço a publicidade quando devia editar um pouco mais os textos publicados. E fazer algumas perguntas...

A verdade é que comprar um televisor 3D não vai servir para nada a não ser alimentar o gráfico de vendas das empresas. Mesmo que sejam somente 1700 dólares por um Samsung 3D LCD TV de 46 polegadas, a verdade é que por esse preço se compra bem melhor, maior e sem 3D. E 3D para quê, se não existe nada para ver.

Com sorte, só em Junho haverá algo para ver, durante o Mundial de Futebol (FIFA 2010) na África do Sul. Depois nada. Ah, claro o canal idiota da ZON e os anúncios 3D do MEO, com a mesma tecnologia usada há anos atrás, quando a TV passou o primeiro filme 3D. Lembram-se? Pois, foi tão excitante que ninguém se recorda.

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A verdade é que toda esta manobra da indústria, com o cinema a ver se nos leva às salas – e a fazer-nos pagar mais por isso -, e os fabricantes de televisores a tentarem vender-nos de novo aparelhos, é normal nos dias que correm, em que tudo parece querer tomar o mesmo ritmo da informática. Que curiosamente, deixou de rolar no ritmo de seis meses/um ano de outros tempos, num sinal de estabilização, pelo menos em termos tecnológicos. A progressão é mais calma agora que atingimos um patamar de qualidade, mesmo sem 3D, que é muito bom.

E é por isso mesmo, também, que a televisão 3D não parece ser “the next big thing” apesar do que se diz. Recordo-me de nos anos 90 experimentar as primeiras máquinas de Realidade Virtual em Londres, aplicadas a jogos, que se dizia serem o futuro. E recordo-me de experimentar jogos com opções de 3D em entrevistas exclusivas com autores de jogos – Peter Molyneux, por exemplo – ou em sessões abertas nas feiras E3 (Los Angeles e Atlanta) e ECTS (Londres). Onde estão?

É verdade que a nVidia tem um sistema de óculos 3D para jogos, mas o sucesso do sistema é... nulo. Razões: a necessidade de usar óculos e a qualidade final.  E são essas mesmas razões que vão ditar o insucesso do sistema depois de passar esta febre. Ou os fabricantes desenvolvem um sistema que não necessita de óculos ou nada feito. Ninguém parece capaz de imaginar uma família inteira sentada no sofá, de óculos, a ver o Jornal da Noite. E pergunta-se: qual seria o interesse de ver o jornal da noite em 3D?

Pois. Nenhum. É verdade que a Samsung afirma poder transformar um sinal 2D em 3D automaticamente, mas o próprio fabricante diz que a qualidade não é nada de que se possa gabar. Estamos, portanto, ainda muito longe da ideia do convés holográfico de Star Trek. Que é o que realmente queremos. Até lá, vamos continuar a ficar fascinados com a televisão FullHD, 1920x1080 pixéis que realmente nos enchem o olhar, e que os fabricantes clamaram por muito tempo ser o topo da escala. E a que muita gente ainda nem sequer chegou. Então por que razão querem agora dar-nos uma imagem de menor qualidade e para a qual necessitamos de óculos?

Talvez seja só eu, mas alguém notou que Avatar ficava bem pior, perdendo muita da cor do original, visto através dos óculos 3D? E pensando bem, o que é que o 3D trouxe, de facto, de diferente ao filme, se deixarmos de lado o entusiasmo causado por tantas notícias e tantas adjectivações fabulasticamente empoladas...

Alguém disse: o rei vai nu?

 

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