Categoria: Artigos Publicado em terça, 25 maio 2010 08:53
A revista Smash acabou. Ao número 12 Jorge Vieira baixou os braços e desistiu. E a equipa. A derradeira voz independente das revistas em papel em Portugal fechou, num sinal evidente de duas coisas: a força da Internet e o desinteresse dos editores e leitores.
Demorei algum tempo a escrever estas linhas porque me foi difícil digerir o sucedido. Não que tivesse qualquer ligação ao projecto, mas porque via ali uma luz de rebeldia e a continuação de algo que foi encetado na MegaScore quando a concebemos há alguns anos atrás.
Toda a gente se queixa, abana a cabeça e diz que não devia ser assim. Mas lá no fundo devem estar a borrifar-se. Uns porque não compram revistas e o dizem abertamente por todo o lado, da Internet a conversas ao vivo, outros porque tanto se lhes dá se o que lêem vem de um grupo independente ou de alguma publicação cuja dependência monetária deixa sempre no ar a suspeita de mais do que normais ligações de trabalho.
É evidente que todas as publicações dependem de alguma coisa... mas existe dependência e dependência e Portugal, na sua pequenez, atingiu o ponto que muitos sonharam há anos atrás: o do controlo total das publicações de jogos. Se alinharmos os títulos do mercado neste momento verificamos que derivam todos de um mesmo nome... com ligações a um distribuidor de jogos. Curioso.
Tanto mais curioso, diria, quanto esse mesmo distribuidor tentou controlar, há anos, a Mega Score, tentativa que contornámos na altura mas que se foi tornando mais evidente à medida que os anos passavam. Com todas as mudanças do mercado e o desinteresse dos editores e distribuidores quanto à origem - e até qualidade - do que se escreve sobre os seus produtos (basta que digam bem e sigam de perto o press-release) atingimos a situação actual: com a morte da Smash acaba-se uma época, que começou com a MegaScore. Atingimos o ponto onde um mesmo distribuidor, perdão editor, controla da revista PlayStation (também em evidente declínio face aos anos de ouro) a tudo o resto.
Ao escrever o título deste artigo não posso deixar de pensar no álbum homónimo de 1994 dos The Pretenders, em cujo alinhamento de faixas surge um Money Talk de Chrissie Hynde que me faz reflectir sobre as razões para a Smash acabar. Podem apontar-se várias e a mais fácil é alguns escreverem que o modelo não é adequado: nada é adequado quando as pessoas deixaram de querer pagar para ler e a Internet criou a ideia de que todos os conteúdos são gratuitos. Isso mata as revistas. as revistas vivem, parcialmente, das vendas. Do outro lado temos os distribuidores e editores, que por diversas razões cortam na publicidade, sempre com a desculpa de maus resultados e situação difícil. Mas não se coibem de continuar a enviar press-releases e a esperar ver o seu jogo tratado em muitas páginas e bem salientado. De forma graciosa ou em troca de alguns jogos para passatempos. Quem vive com isso?
Estes foram os problemas da Smash, afinal decalcados de tantas outras publicações que sucumbiram nos últimos anos. Em Portugal sempre por desinteresse dos anunciantes, que além de apostarem muitas vezes no cavalo errado, parecem ter uma propensão nata para a desculpa da praxe: não há dinheiro. Nunca entendendo que ao cercearem as hipóteses de uma revista se manter estão de facto a pregar um prego no próprio caixão. Ou que não apostando num sítio na Internet que divulga os seus produtos o estão a asfixiar. Porque efectivamente a questão final de tudo isto é que os leitores, esses já não querem pagar nada. Nem em papel - por isso não compram revistas - nem na Internet. Onde tudo é grátis. Sem que alguém perceba bem a razão.
A Smash acabou porque... o dinheiro fala mais alto. Ou a falta dele. O que fica é um panorama desolador que, por certo, serve a alguns. Culpados? Os leitores que debandaram dos modelos em papel e na Internet querem tudo grátis, a falta de visão de quem faz comércio de jogos - e hardware e tudo o resto que se pode associar aos jogos, de televisores a computadores - em Portugal e a esperteza de quem soube esperar para se tornar no único editor/distribuidor da área em Portugal. Uma posição assaz estranha...
O anúncio oficial do encerramento foi feito a 13 de Maio. Provando que nem a Virgem pareceu preocupada com o destino de uma pequena publicação, de aspecto quase underground que nesse dia entregava a alma ao Criador. Afinal já não há milagres!
Nada disto resolve um dilema para quem gosta de ler por outras linhas: a Smash era a última das revistas independentes no sector. Pensem nisto quando lerem algo noutros papéis.