Os esforços da Microsoft e Sony podem não convencer o público a usar os comandos prometidos para o futuro próximo. Afinal, repetir o que a Nintendo fez não é tão boa ideia assim. A "febre" já passou e a situação económica não ajuda a pensar em andar aos pulos.
Quando passar a febre manipulada pelos tech-boys do costume, o Kinect que antes se chamou Natal e o Move vão acabar numa caixa esquecida no sotão, como acabou o comando de movimento de muitas Wii antes deles.
A sugestão é baseada em recente sondagem da OTX Game Plan que indica não haver muito interesse dos consumidores nos comandos novos da Microsoft Xbox 360 e Sony PlayStation 3. Numa sondagem típica, citada pelo sítio Gamasutra, o inquérito realizado a dois mil consumidores entre 23 de Maio 3 5 de Junho de 2010 revelou que somente 8 por cento fazem intenção de comprar o comando Kinect da Microsoft. E apenas 6 por cento apontam para o Move como potencial compra.
Apesar do limitado número de participantes na sondagem, algo que alguns sugerem como tirando-lhe qualquer sentido, a verdade é que ela representa o esboçar de uma posição que pode ser bem real. Uma viagem por muitos fóruns de jogadores sugere que o sentimento é semelhante face a estas novas propostas de "shovelware". E se olharmos para o mundo real e o que já existe fica uma pergunta no ar: quantas pessoas conhece que possuem uma Nintendo Wii e usam o comando de movimento?
A verdade é que Sony e Microsoft vão atrás numa procissão que partiu há dois anos e que a Nintendo venceu. Quem queria comprar um comando de movimento e jogos desse tipo comprou a Wii. E na verdade, depois de passada a euforia – alimentada pelos tais tech-boys, alguns com programas na televisão e tudo... – a verdade é que somente uma meia dúzia de jogos da Wii que usam o comando tiveram algum sucesso.
E existe outro problema que toda a gente parece querer esquecer ou escamoteia conscientemente: é limitado o número de jogos em que realmente se pode usar estes comandos. E fica ainda por saber quem tem o espaço físico para os exercícios sugeridos. Ou vizinhos com paciência para aguentarem o barulho de tantos saltos...
Por outro lado, muitos dos jogadores querem é controlar o jogo e não participar nele da forma que estes comandos sugerem. Depois de passada a emoção de fingir que se joga boxe dando murros no ar diante do ecrã, quem vai querer passar horas de pé jogando Fight Night? É bem mais confortável sentar com um joypad na mão – afinal os jogadores sempre foram considerados como coach-potatoes e não gente activa, apesar do que os tech-boys querem fazer crer – e dar murros, além de poder ser feito a qualquer hora do dia ou da noite sem se arriscar levar um murro nas ventas de um vizinho aborrecido. Por causa do barulho.
Além de que estes comandos não servem para muitos jogos modernos, coisas como Red Dead Redemption, em que o jogador finge andar a cavalo, dá tiros, luta com os punhos ou simplesmente conversa. Ou a Microsoft e a Sony vão criar cavalos de pau para ter na sala de estar, ligados à consola? Não gozem comigo.
Em alguns círculos da indústria sugere-se mesmo que estes comandos vão ser um fiasco total. O público que havia para seduzir com este tipo de comandos foi, em termos gerais, para a Wii, e os actuais possuidores de Xbox 360 e PS3 têm dificuldade em ver em que é que estas ideias podem significar melhores jogos. O que nos leva à pergunta feita anteriormente: quantas pessoas conhece que tenham uma Wii e o comando de movimento? E o usem?
Por isso mesmo Kinect e Move serão, dentro de alguns meses, depois de passada a febre – e as imensas campanhas de marketing dos produtos, no Outono – assinalados pelos dois fabricantes como produtos que não corresponderam às expectativas. O que não será de admirar, porque além de a generalidade do mercado desconhecer ambos, do lado dos criadores de jogos cria-se agora uma nova encruzilhada: criar jogos para uma base já estabelecida de jogadores ou conceber jogos que usam os novos comandos, que ninguém possui, e esperar que as pessoas os comprem?.. Pois, ninguém produz jogos para acessórios que não se vendem...
Uma nota mais para os que pretendem saber o habitual: qual é melhor? Numa análise dos equipamentos apresentados na E3 Matt Peckam, da PC World, diz que o comando Move da PS3 é muito melhor do que o da Xbox 360. Segundo o autor, mudar do Kinect para o Move é como passar de um vulgar leitor de música para a alta-fidelidade.
Feita a referência, o problema inicial continua: quem vai querer estes comandos. E vão servir para algo? Pergunto isto porque pela minha experiência pessoal, o único comando que ainda uso para lá do teclado, rato e joypad é um joystick Sidewinder FF 2 da Microsoft, para os simuladores de voo.
Na garagem, empilhados, temos quilos de acessórios específicos que fizeram o seu tempo e foram prometidos como a grande revolução: o Strategic Commander da Microsoft, dito como único comando para jogos de estratégia (durou seis meses...), o SideWinder Game Voice da Microsoft, apresentado como tudo o que era necessário para comunicar com os amigos em jogos (durou alguns meses...), e três ou quatro volantes para simuladores de condução, de diferentes marcas e especificações, para jogos de carros. Tapetes para jogos de dança, maracas para jogos de música, pistolas para jogos de tiros (depois da emoção de nos escondermos atrás do sofá aos tiros para o ecrã desistimos...), e um nunca mais acabar de outros objectos de controlo considerados essenciais e hoje cheios de teias de aranha traçam um percurso iniciado nos anos 80 no universo dos jogos. Consolas como a Sega Dreamcast, a Commodore Amiga CD32 sugerem um outro lado de uma história de falhanços a que se poderiam juntar pranchas de skate para os simuladores do dito, pranchas de surf para imaginar o desporto em cima do tapete da sala...
Afinal, preferimos jogar sentados, com um bom joypad, com rato teclado. E ter jogos inteligentes, com melhores histórias, que realmente nos prendam ao ecrã. Não são comandos idiotas que representam mais uma “febre” – neste caso atrasada dois anos, afinal o futuro agora é 3D... por mais alguns dias, diria – que vão fazer a indústria funcionar. Do que realmente precisamos é de bons jogos. E disso, infelizmente, há cada vez menos.
















